Estefânia Barroso

por Estefânia Barroso

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Desde que me lembro de ser gente que me recordo de me caracterizarem com duas frases bem populares: «Esta não tem papas na língua» e uma outra, penso que bastante mais antiga e menos usada hoje em dia: «Tens a trave bem cortada». Queriam, com isto, dizer que era muito faladora e que, de uma forma geral, dizia tudo o que pensava, sem usar paninhos quentes para não magoar o outro. Tenho de o admitir, desde já, que diziam e falavam verdade. Nunca me considerei uma pessoa tímida e sempre considerei que tinha muito a dizer sobre tudo o que me rodeia. Como tal, desde que me lembro de ser gente que tenho uma característica inegável: sou muito opinativa!

Ora, seria de esperar, tendo em conta o que acima disse sobre mim, que eu fosse uma pessoa que facilmente diria não àquilo com que não concordo, não às pessoas, quando assim fosse necessário, não às situações que não me agradam. Contudo, não era necessariamente assim. Durante muito tempo tive algum pejo em usar o «não» redondo, sentindo, de algum modo, que seria mais simpático da minha parte não contrariar as pessoas em assuntos que não me pareciam de maior importância. Posso dar-vos um exemplo quase cómico: quando alguém conversava comigo numa qualquer rede social, sentia como que uma obrigação de conversar com essa pessoa, ainda que não tivesse vontade alguma. Não era capaz de, simplesmente, dizer: «Não me apetece conversar, estou ocupada». Ia respondendo, de forma breve, procurando que a outra pessoa entendesse, através do meu comportamento, que não tinha disponibilidade, temporal e mental, para aquela conversa. Sabem onde é que essa situação desembocou várias vezes? Num «Caramba, não fazes um esforço para ser simpática!». E o pior é que eu acho que tinha feito o esforço descomunal de não dizer logo à partida: «NÃO!»

E posso dizer-vos que não pronunciar um rotundo «não» me trouxe alguns dissabores. Mantive situações, relações e algumas amizades durante mais tempo do que seria suposto apenas por não ter a força de dizer um «não», um «chega», um «basta!». Sempre levei demasiado tempo a tomar essa decisão. E posso dizer-vos que, quando chegava o momento em que, inevitavelmente, o «não» aflorava à minha boca, a reação dos outros não era a melhor. Muitos não percebiam de onde vinha aquela explosão de mau humor e aquele «não» tão perentório.

A idade traz com ela muitas coisas que pouco me agradam — sobretudo, a nível físico. As dores, aqui e acolá, que vão nascendo e que decidem habitar o nosso corpinho. As rugas que decidem alterar a nossa fisionomia. Os quilos que se instalam devagarinho e que nunca mais nos abandonam. O cansaço que jurámos, quando éramos mais novos, que nunca iríamos sentir… Contudo, a idade não traz apenas coisas negativas. Traz-nos, também, umas quantas qualidades que vêm embrulhadas pelas rugas e pelas dores nas costas. Uma delas é a calma. Uma calma e uma paciência que, quando jovem, nem imaginava que existia. Mas a qualidade que me trouxe e mais aprecio, em mim, é a assertividade, é essa capacidade de olhar para uma situação e dizer, com um sorriso sereno: «Não, obrigada».

A idade trouxe-me uma facilidade em dizer «não». O «não» sai redondo, limpo, sem nó na garganta e sem um sentimento de culpa que insistia em fazer ninho na minha mente quando, em jovem, o acabava por fazer. Tempos houve em que dizia «talvez», «logo se vê», «vou pensar», protelando o «não», esperando que os outros entendessem que, na verdade, eu queria dizer não.

Hoje em dia, digo «não» e não perco o sono por isso. Até acho que é libertador afirmar que não quero, que não estou interessada, que não gosto. Dizer não é como tirar os sapatos apertados no fim do dia: traz uma sensação de alívio difícil de descrever.

A idade ensinou-me que o «não» é uma palavra poderosíssima. Com ela aprendi a poupar tempo, paciência e uma quantidade absurda de chatices. Percebi, também, que quem se ofende com um «não», provavelmente, já precisava de o ouvir há mais tempo. E aprendi, por fim, que há «nãos» que se dizem em silêncio. Um simples «visualizado às 22:40» é um poderoso e elegante «não».

A idade trouxe-me rugas, é verdade. Mas trouxe-me, também, o maravilhoso filtro da paciência: já não discuto com quem não quer entender, já não explico o óbvio, já não me sinto mal por não estar sempre disponível. A trave continua bem cortada, é um facto, mas uso-a quando é mesmo preciso. Com o tempo e a idade aprendi que o verdadeiro poder não está em dizer tudo o que me passa pela cabeça, mas em saber quando calar… e quando dizer, com gosto e convicção: «Não!»

About the Author: Estefânia Barroso
Estefânia Barroso
Nascida em terras francesas (Chambéry) em 1976, rumou a caminho de Portugal ainda na infância. Embora sonhasse ser veterinária, cedo percebeu que era no mundo das letras que o seu futuro se encontrava. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e iniciou a sua vida profissional como professora de Português. Mais tarde, após terminar Mestrado em Educação Especial, tornou-se professora de Educação Especial. Leitora ávida e autora dos livros “Contos com gente lá dentro” e “Contos com bichos lá dentro”, tem mantido o blogue “Steff’s World – a Soma dos Dias”, onde escreve crónicas e contos. Para além disso, escreve para jornais como o P3 do Público e alguns jornais locais.

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