por Daniela Rodrigues

Hoje, apeteceu-me cozinhar uma vida.
Não uma coisa qualquer: um doce!
Vou fazer um bolo: o meu bolo de iogurte favorito, passo a passo com a vida.
Gosto de começar por tratar dos ovos: separar as claras das gemas e, se posso bater os ingredientes à mão, no caso das claras em castelo, prefiro colocá-las na batedeira, que faz isso por mim, dando-me tempo para tratar do resto.
Sabem, na vida, delegar tarefas também parece ser algo cada vez mais essencial. Não temos de ser nós a tratar de tudo, a cuidar de tudo, a fazer tudo sozinhas. Querer fazer tudo leva a um estado de ansiedade e exaustão, quando não conseguimos chegar a todo o lado. O melhor, para nós e para quem está connosco, é que haja mesmo essa partilha de tarefas. Eu preciso de cozinhar, mas outra pessoa pode ir fazer as camas, aspirar o chão ou arrumar a loiça… e está tudo bem! Assim, concluímos mais tarefas, ganhamos tempo em vez de stress e podemos aproveitar os minutinhos extra para o mimo!
Vou juntar as gemas ao iogurte. Não é um iogurte qualquer! Desta vez, é um iogurte de morango. Gosto que tenha sabor e, por isso, vou variando os aromas dos iogurtes. Não me cativa mesmo nada usar um iogurte natural.
A vida também é mais bonita quando tem sabor! Quando tem aquele cheirinho mais doce e um sabor que nos delicia. Quando as palavras se tornam doces em vez de serem simplesmente banais.
Chega a hora de juntar o açúcar. Já vos disse que a vida é mais doce assim? Precisamos urgentemente de adocicar-nos — nas palavras e nos atos, nos sentimentos e nos pensamentos. Na empatia, tão necessária.
E a farinha? Sabem que há quem a peneire antes, para garantir que não passa nenhum grumo que nos possa chatear quando mexemos a massa?
Na vida, também devemos aprender a filtrar o que não é bom. Devemos soltar-nos daquilo que os outros querem para nós e seguir pelo caminho que nós queremos e que nos faz bem. Devemos escolher deixar entrar os sentimentos bons e manter de fora as coisas que nos magoam, que nos afundam, que nos destroem em pedacinhos que se perdem. Devemos filtrar as opiniões alheias e focar-nos mais em nós. Os outros não são a nossa vida.
Uma colher de fermento — porque, afinal, queremos que as coisas boas sempre cresçam!
Por último, vou juntar as claras batidas em castelo à restante massa e misturar tudo muito bem. Dizem que é bom sinal quando a massa faz bolhinhas.
A forma já está untada com manteiga e polvilhada com farinha. É só verter a massa para lá, levar ao forno e aguardar que esteja cozida.
Também é importante o que nos envolve: o espaço e as pessoas. Devemos ter o cuidado de ficar apenas quando há lugar para nós, quando há espaço para nós, sob pena de, quando não o fazemos, nos anularmos a nós mesmos e nos perdermos de nós, da nossa essência.
E o tempo e a paciência são fundamentais para tudo o que almejamos: há um tempo certo para tudo acontecer e não devemos apressá-lo. Se não, corremos o risco de não ter cozinhado o tempo suficiente e de se tornar apenas em tempo e ingredientes desperdiçados, por sermos impacientes com o que devemos aguardar.
Já está. Terminou o tempo de cozedura. Já fiz o teste do palito. A massa está boa! É só deixar arrefecer um pouco e depois já posso desenformar e colocar num prato bonito.
Hoje, o lanche será mais doce. Vai ter as minhas pessoas em volta da mesa e um bolinho morno ao centro, para partilharmos enquanto falamos do nosso dia.
E são estes pequenos momentos que fazem valer a pena os dias corridos.
Hoje, apeteceu-me cozinhar um bolo, a vida, as ideias, os sentimentos e a paixão de fazer sempre mais pelos outros, trazendo o calor e a doçura para a nossa mesa, mesmo que apenas durem uns escassos instantes.



