Sofia Reis Cardoso

por Sofia Reis Cardoso

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Tenho tentado a cada novo mês, a cada nova semana, a cada novo dia. Quando chego ao final da manhã e voltei a falhar, tento inclusive da parte da tarde. Não parei de tentar, mas, como não consigo, e são muitas as vezes que não consigo, fico cada vez mais frustrada e desiludida comigo mesma.

E o que é que eu não consegui? Não consegui tirar tempo para mim e escrever, com prazer, sem pressa, apenas por gosto, porque me faz bem, me liberta, me permite conhecer-me melhor e dar-me a conhecer quando partilho o que escrevo. Mas, ainda mais do que isso, do que não escrever, tenho deixado tantas outras coisas pelo caminho, tantas outras coisas que não consigo realizar ou concluir, e é tão difícil de explicar a quem nunca passou por algo semelhante ou a quem tem determinados parâmetros de vida para os quais é totalmente inconcebível atingir a forma de viver em que me encontro neste momento.

Eu própria desconhecia que era capaz de viver desta forma, mas o que é certo é que vivo. Não quero, de maneira alguma, que esta se torne a minha forma de ser por repetição, por costume ou por hábito. Eu não sou assim, nem quero ser assim. Não sou desorganizada, desleixada, descontrolada, caótica, irresponsável, mas esta tem sido a Sofia deste ano.

Foi um ano de 2024 que acabou mal e 2025 iniciou-se na mesma linha. E eu sinto como se tivesse sido ontem! Juro mesmo! Sinto de tal forma que não tenho vivido nada este ano, não tenho sentido, ao ponto de parecer que o dia 31 de dezembro de 2024 foi antes de ontem e que comecei janeiro ontem a dormir 24h/24h durante três dias. Nesses dias apenas trocava de pijama, completamente encharcada com a febre que tinha, e bebia iogurtes proteicos que tinha no frigorífico para não quebrar por completo, até ter sentido energia suficiente para sair de casa e ir à farmácia.

Fui para Tomar atrasada para o jantar de passagem de ano, porque, nessa altura, recusava-me a sair de casa sem deixar tudo imaculado, como se alguém viesse visitar a casa. Levei inclusive uma entrada para o jantar que eu própria tinha feito, mas fazia a viagem já com o carro acidentado, com a porta do condutor toda metida para dentro, devido ao acidente que tinha tido no dia 7 e que me fez acreditar, durante aqueles que foram dos segundos mais avassaladores da minha vida, que tinha matado uma pessoa.

Seguia atrasada, essa parte sem conseguir corrigir, ainda que tivesse deixado a casa totalmente ao meu gosto — volto a repetir, para me relembrar de algo que fiz bem feito —, mas, ao mesmo tempo, fui apenas pelo compromisso que tinha. Porque senti que, naquele momento, estava a falhar comigo mesma e isso veio a comprovar-se no resto da noite. Tinha sido mais justa comigo e com as outras pessoas se não tivesse ido. Senti que, naquele momento, precisava de ter passado aquela passagem de ano no aconchego da minha casa, sozinha comigo própria, mas muito acompanhada ao mesmo tempo, porque nunca me senti sozinha no verdadeiro sentido da palavra, e não correspondi à minha vontade.

É assim que tenho agido na maior parte dos dias — contra a minha própria vontade, que eu acho que, na realidade, até desconheço —, e isso deixa-me com a sensação de que estou completamente desconectada de mim mesma. Além de desconectada comigo, no verdadeiro sentido da palavra, não estou verdadeiramente presente com as pessoas e naquilo que faço, e isso era algo que eu me orgulhava de conseguir fazer: estar simplesmente presente. A calma que sentia à minha volta deixou de existir. Voltou a ansiedade física, aquela que tantos anos demorei para conseguir controlar.

Estou melhor. Sinto que estou melhor a cada dia, a cada metade do dia, a cada semana e, espero, a cada mês, mas o caminho ainda é longo!

About the Author: Sofia Reis Cardoso
Sofia Reis Cardoso
Escrever, ler e dançar são as suas formas preferidas de passar o tempo. Estudou Direito, trabalha no Departamento de Contencioso de uma Seguradora, mas é nas letras e no papel que encontra o seu refúgio e a sua maior concretização. Natural de Tomar, entregou o seu coração a Lisboa aos 18 anos e é com a capital que mais se identifica. A Emootiva é uma extensão daquilo que a apaixona e onde quer continuar os seus passos, juntamente com outras escritoras.

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