Estefânia Barroso

por Estefânia Barroso

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Elvira não tinha acordado bem. Doía-lhe o corpo, o que, por sua vez, lhe fazia doer a alma. Ah, como ela odiava estar a envelhecer, a assistir à decadência do seu corpo — um processo que decorria devagarinho, mas que avançava, mais um passo, dia atrás de dia. Na sua mente, queria acreditar que ainda tinha vinte anos, que ainda era jovem. Contudo, o seu corpo insistia em relembrá-la de que os vinte anos já tinham passado há muito. As dores nos músculos, nas articulações, a dificuldade em mover-se, tudo era indicativo de que a idade estava avançada e de que o passado já estava bem longe.

Estava na cozinha, a tratar do pequeno almoço, quando Joaquim surgiu à porta. Já tinha estado no jardim a tratar das plantas. Contudo, agora vinha já com um ar cansado e trazia um semblante de dor. Enquanto depositava um beijo de bom dia nos lábios da sua mulher, foi aproveitando para se queixar da dor lancinante que trazia nas costas. Não consigo tratar de mais nada, hoje. Tenho uma dor terrível nas costas. Sabes o que te digo, Elvira? Apesar de continuar a ser este pedaço de homem por quem te apaixonaste, estou velho. O meu corpo já acorda com dores e apenas pede descanso!

Elvira emitiu uma pequena gargalhada. Ah, meu velho, hoje acordamos assim: cansados e cheios de dores. Estamos mesmo bem um para o outro. Dois velhinhos, cansados e cheios de dores. Valha-nos, ao menos, o nosso amor que não envelhece, nem ganha rugas! Anda, senta-te e bebe o café da manhã comigo, a ver se nos esquecemos de todas estas lamentações.

Joaquim assim fez. Talvez uma torradinha e um café fizessem esquecer as dores da velhice – pensou.

A verdade é que o pequeno almoço ia quase no fim e nenhum dos dois se sentia melhor das suas dores no corpo… e, consequentemente, na alma.

Joaquim desenhou um ligeiro sorriso no seu rosto sulcado de rugas. Que dizes a um pequeno banho de imersão? Faz-nos sempre tanto bem os banhos na nossa banheira tão velhinha quanto nós!

Elvira respondeu com um sorriso. Eventualmente, seria disso mesmo que ambos precisavam: de um bom banho que os fizesse esquecer o tempo e as dores presentes. Arrumar a cozinha podia esperar. Arrumar o quarto também. E, pelo que tinha dito Joaquim, o próprio jardim continuava a necessitar de algum trabalho, mas teria de ficar para outro dia.

Subiram as escadas de mãos dadas. O tempo não lhes tinha roubado o amor e carinho que sentiam, um pelo outro, e que se continuava a manifestar em todos os pequenos gestos diários.

Joaquim tratou de encher a banheira com uma água quente, suficiente para poderem relaxar, juntando-lhe um sais de banho bem cheirosos. Os mesmos que tinham usado desde o primeiro banho naquela banheira. Sentou-se lá dentro e exclamou: Elvira, anda! Já estou à tua espera e até já me sinto melhor!

Elvira entrou na casa de banho. Já vinha despida. Joaquim olhou para aquele corpo amado que, apesar das marcas da idade, se lhe apresentava sem qualquer pudor. E Elvira tinha razão para não ter vergonha do seu corpo envelhecido, do seu peito descaído, das peles caídas e rugosas. Para ele, ela continuava tão bonita como no dia em que tinham casado. Elvira entrou, sentou-se de frente para o marido, aproveitando para depositar um beijo nos lábios do seu amado esposo.

Assim que Elvira entrou na banheira, ambos sentiram aquele formigueiro no corpo que já consideravam habitual. Não era a primeira vez que empreendiam “essa viagem”.

E, assim, como se as fronteiras do tempo e do espaço se esbatessem de um momento para o outro, Elvira viu-se com vinte e cinco anos, nos braços de Joaquim, enquanto dançavam, lentamente, os corpos bem colados um ao outro. Estavam felizes e enamorados. Não tiravam os olhos um do outro. Foi nesse dia, precisamente, que Joaquim tinha declarado o seu amor e lhe tinha pedido a mão… e o corpo todo, em casamento.

Elvira comentou, na sua voz de idosa: Então, era para aqui que me querias trazer quando propuseste o banho? Era essa a memória que querias revisitar? Eu preferia uma outra.

Joaquim abriu os olhos e dando-lhe outro beijo disse: Então, agora escolhes tu o destino. Elvira e Joaquim viram-se, então, com uns trinta anos, num chalé, na Suíça. No dedo anelar já brilhava uma aliança. Bebericavam um vinho, enquanto conversavam sobre tudo e nada, riam muito e aproveitavam qualquer desculpa para dar um beijo e para descobrir o corpo um do outro. Como tinham sido felizes naquele dia! Como Elvira se sentia feliz, ao reviver estes momentos!

Elvira aproximou-se um pouco mais do seu Joaquim, enrolando as pernas nas dele. As imagens tinham desaparecido, enoveladas no vapor. Já não havia salão de dança, nem chalé. Só eles, naquela banheira antiga, e os seus corpos enrugados, mas aquecidos pela água e pelo amor que subsistia.

Sabes uma coisa, Joaquim? Estou convencida de que o que envelhece não é o nosso corpo. É o mundo à nossa volta. Nós continuamos aqui, jovens um no outro.

Joaquim riu baixinho, enquanto lhe acariciava o braço. É verdade! Enquanto tivermos esta banheira que nos leva para quando e onde quisermos… que se lixem as dores e o reumático.

Riram. O riso de ambos não tinha envelhecido. Continuava a ser o riso de dois jovens que tinham acabado de descobrir o amor.

Lá fora, o sol já ia bem alto. Contudo, dento da casa de banho, o tempo tinha parado. E, naquela manhã de dores no corpo e alegria na alma, Joaquim e Elvira deixaram-se ficar – navegando entre memórias e vapor, como quem se recusa, com doçura, a sair do sonho.

About the Author: Estefânia Barroso
Estefânia Barroso
Nascida em terras francesas (Chambéry) em 1976, rumou a caminho de Portugal ainda na infância. Embora sonhasse ser veterinária, cedo percebeu que era no mundo das letras que o seu futuro se encontrava. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e iniciou a sua vida profissional como professora de Português. Mais tarde, após terminar Mestrado em Educação Especial, tornou-se professora de Educação Especial. Leitora ávida e autora dos livros “Contos com gente lá dentro” e “Contos com bichos lá dentro”, tem mantido o blogue “Steff’s World – a Soma dos Dias”, onde escreve crónicas e contos. Para além disso, escreve para jornais como o P3 do Público e alguns jornais locais.

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