por Estefânia Barroso

Numa conversa com algumas das emootivas (nesta plataforma de escrita, para além de se escrever, também se conversa muito) falávamos da quantidade de textos que já tínhamos publicado. À conta dessa conversa, dei por mim a tentar fazer contas para perceber há quanto tempo andava por cá a partilhar ideias, opiniões, vontades, medos… Sou péssima para números e deverá ser essa a razão pela qual não faço ideia de quantas crónicas, quantos contos terei escrito até hoje, e apenas sei que partilho aquilo que escrevo há quase 10 anos porque o blogue arquiva tudo direitinho, referindo o mês e o ano. E foi assim que percebi que partilho as minhas histórias desde 2017!
Hoje, quando penso nisso, não entendo como consegui viver tanto tempo sem escrever. E isto porque, acima de tudo, escrever faz-me bem. Percebi, com o tempo, que é através da escrita que arrumo as ideias que pululam na minha mente. É através da escrita que consigo ordenar pensamentos, inquietações, emoções. Parece que é através dela, da escrita, que observo minuciosamente, como se o fizesse através de um microscópio, as situações que me magoam, as que me fazem bem, as que me fazem pensar sobre o estado do mundo… E a verdade é que, depois dessa análise minuciosa, através da escrita, sinto que fico aliviada.
A primeira crónica publicada no P3 do Público aconteceu aquando dos incêndios em Pedrógão. Lembro-me que a escrevi de uma rajada, à mão (coisa que acontece muito raramente), logo pela manhã quando ouvi no noticiário a tragédia que tinha acontecido. E lembro-me da sensação de ter despejado toda a dor, revolta, zanga com o mundo por causa daquele trágico acontecimento naquelas folhas de papel. É claro que toda aquela situação me pesava muito no peito. Mas colocar toda a angústia em palavras pareceu tirar algum peso à tristeza que sentia. Penso que terá sido a primeira vez que percebi que escrever me fazia, de facto, muito bem. Hoje, já sei que, quando passo por uma situação caricata, que me pode ter envergonhado ou ter feito rir, por uma situação de divertimento absoluto (um concerto, por exemplo), ou um momento de imensa tristeza, cedo ou tarde irei escrever sobre isso. Parece que só depois de escrever é que essa coisa ficará arrumada na minha cabeça.
Isto de escrever para arrumar ideias é muito giro. Até fica bem dizer isso numa conversa, quando conheces alguém, digo eu. Mas a questão é que eu tenho um pequeno problema. Gosto de escrever, mas raramente escrevi para a gaveta. Depois de escrever, sobre o que quer que seja, tenho necessidade de partilhar o texto com quem conheço, com quem não conheço, com o mundo. E isso, caros leitores, por vezes traz uns dissabores com os quais é difícil lidar.
Já aqui falei da minha primeira publicação no P3. Logo nessa altura fui aconselhada a nunca ler os comentários. Mas é claro que eu queria lê-los, não é? E posso dizer-vos que aquilo é uma selva! Temos de estar preparados para tudo. As pessoas atrás de um ecrã são capazes de dizer as maiores ofensas, serem feias, brejeiras, apenas e só porque não concordam contigo. E posso garantir-vos que, ainda que se escreva, num dia de verão, que está um belo dia de sol, haverá sempre alguém que virá responder: «Isso é para ti! Para mim, está um péssimo dia de inverno, chuvoso!»
Partilhar a minha escrita é uma necessidade, mas, assumo, é também um ato de grande coragem. Por um lado, como disse, há sempre aquelas pessoas que não sabem discordar sem serem profundamente ofensivas. E, por mais que se tente nem ler, ou nem dar atenção a comentários destrutivos, a verdade é que não deixam de criar ali uma pequena nódoa negra.
Por outro lado, quer queiramos, quer não, há sempre o medo do julgamento, da crítica. Escrevemos, partilhamos e, no fundo, queremos que concordem connosco. Não é fácil quando isso não acontece. Até porque, como já disse, não sabemos discordar de forma civilizada. E, por isso, sentimos que estamos a ser julgados em praça pública e o pior é que fomos nós, deliberadamente, que nos colocámos naquela posição!
Por fim, corremos sempre o risco, e já me aconteceu bastas vezes, de interpretarem o texto de uma forma errada. Não raras vezes recebi comentários referindo ideias que estavam a anos-luz daquilo que eu tinha pensado quando escrevi. E, mais uma vez, a insegurança instala-se. Será culpa minha? Serei eu que não sei escrever de forma a que todos me entendam?
Aqui chegados, perguntar-se-ão: se existem tantos aspetos menos positivos em escrever e em partilhar o que se escreve, por que raio insisto, há quase 10 anos, em partilhar a minha escrita. E dir-vos-ei que o continuo a fazer porque há também o outro lado. Há escrever o que sentimos e vermos alguém que nos responde a dizer que sente exatamente assim, que pensa da mesma forma, que se sentiu completamente representado naquele texto. Perceber que um ponto de vista, uma forma de sentir, algo que nos parecia tão pessoal, é partilhado por uma imensidão de gente traz um calorzinho fabuloso. Ou, por fim, perceber que aquilo que escrevemos agradou mesmo a alguém. Perceber que vais tendo um pequeno público, fiel, que reconhece a tua escrita e a aprecia. Isso, meus amigos, vale as dores e as dificuldades de nos expormos, em praça pública, através da escrita.
E talvez seja por isso que continuo aqui, quase dez anos depois. Não porque tenha deixado de sentir medo quando carrego no botão de publicar. Não porque tenha aprendido a lidar com todas as críticas ou porque tenha deixado de me incomodar quando alguém interpreta um texto de forma completamente diferente daquilo que eu quis dizer. Continuo a sentir tudo isso.
Mas também continuo a precisar de escrever. Preciso de transformar em palavras aquilo que me inquieta, me alegra, me revolta ou me entristece. Preciso de escrever para compreender melhor o mundo e, sobretudo, para me compreender melhor a mim. E se, pelo caminho, encontrar pessoas que sentem o mesmo, que se reveem nas minhas palavras ou que me ajudam a olhar para as coisas de outra forma, melhor.
No fundo, escrever continua a ser a forma mais eficaz que encontrei de arrumar a casa cá dentro. E, pelos vistos, depois de a arrumar, gosto de deixar a porta aberta.



