Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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No silêncio, ouço o meu frágil coração partir-se em mil pedaços, estilhaçar-se como se fosse de cristal reluzente.

Sinto a dor invadir-me, mesmo tendo noção de que ele ainda bate, bate… por ti.

Depois de anos de solitude — gosto da palavra — porque nunca vivi na solidão, somente consciente de que estava só, acompanhada pela multidão,

Sempre procurei ter a minha vida com coisas que me davam prazer, que me faziam feliz, que me faziam sorrir abertamente, não por me sentir só, mas para viver a vida na plenitude que me era permitida.

Mesmo assim, procurava a minha companhia, porque ela me dava prazer, porque gostava da minha companhia, a tal solitude consciente e necessária.

Tinha uma vida plena, cada vez tenho mais essa certeza.

Mas claro que tudo pode mudar num simples piscar de olhos…

E mudou.

Eu deixei de gostar da minha solitude.

Não sei se conscientemente, se por imposição da sociedade, se por fragilidade minha.

Só sei que deixei de gostar de mim.

E, quando isso aconteceu, tu chegaste.

Chegaste com passos suaves, com palavras ternas, com olhares cheios de promessa…

Promessas de que eu não precisava, mas que tu fazias questão de fazer.

Devia saber melhor…

Fui-me deixando ir, consciente disso no início. Ia, mas sempre com a esperança de voltar a amar-me, no processo.

Mas, em algum momento, perdi-me.

Perdi-me nas tuas promessas. Perdi-me nas palavras. Perdi-me nos toques, nos olhares. Perdi-me.

E deixei de me ver, de me conhecer.

Tu não me deixaste espaço para me redescobrir, apoderaste-te de tudo em mim. As promessas iniciais, tão cheias de mistério e prazer, tornaram-se amarras que me prendiam.

Deixei de me conhecer.

Passei a odiar os momentos sem ti. Não importavam os outros, mas tu, só tu.

Abdiquei de mim.

Deixei de viver e passei a ser somente uma pequena sombra ao teu lado.

Procurei por mim, mas deixei de me encontrar.

Como não me encontrei, tu também deixaste de me ver.

Deixaste de me querer.

Deixaste-me.

O meu coração sangra sem derramar uma gota de sangue.

A dor que me cega, as lágrimas que me derrubam, não me permitem olhar-me.

Não me vejo porque o que me definiu foste tu.

A solitude deixou de ser boa e passou a doer, porque tu me mostraste o outro lado.

Mas ninguém me avisou que, no processo, me podia perder.

Perder-me de mim.

Com o coração partido, com o corpo destroçado, com a mente em frangalhos, vou procurar-me a mim.

Vou voltar a amar-me.

Vou voltar a conhecer-me.

E, da próxima vez, vou continuar a amar-me, mesmo que possa amar outro.

Porque a vida o permite.

Voltar a amar.

Quando não destrói, o amor é tudo.

O meu coração vai voltar a bater por mim!

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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