por Sónia Brandão

A vida é repleta de momentos que nos fazem questionar as nossas escolhas, as nossas histórias, porque muitas vezes, quando as revisitamos, acreditamos que elas poderiam ter tido outro desfecho.
Mas também existem aquelas outras histórias que, por mais que estejam mais do que acabadas, na nossa mente, ainda se encontram inacabadas, porque ainda não as desvendamos na totalidade…
São essas que marcam a nossa vida com a tal profundidade que nos faz duvidar.
Esta história, que, por vezes, vou revisitar, não é uma história de amor.
É somente um amor que nunca aconteceu.
Não foi uma paixão.
Foi uma relação construída na base de uma amizade aparentemente com bases sólidas, e cheia de futuro.
Foi uma relação vivida sem muito querer.
Foi uma relação que fazia sentido naquele momento com aquela pessoa.
Não foi o início eletrizante que deveria ter sido, ou que se supunha que seria.
Logo no primeiro beijo, fiquei com a sensação de que era um erro, mas, mesmo assim, avancei e tentei viver aqueles momentos porque, em algum lugar dentro de mim, fazia sentido.
(Foi um daqueles momentos em que a vida diz «vive, vai correr bem». E eu, com todas as incertezas, fi-lo. Mesmo ouvindo todos os alertas que me diziam «não!», eu fui, tal como a vida me disse.)
A melhor forma de a descrever talvez seja o deixar de viver.
Deixei de viver e comecei a aceitar o que tinha «escolhido», como se nunca tivesse tido a opção de não o fazer.
Não o deveria ter feito — essa é a verdade.
Vivi momentos que muitos poderiam chamar de únicos, mas para mim foram somente momentos sem muito mais acrescentar. Acredito que, em parte, esse sentimento esteve sempre relacionado com as expetativas que criei em relação a uma pessoa que, na verdade, não existia.
Ninguém inicia uma relação com outra pessoa sem criar momentos e situações, dentro da sua cabeça, que quer tornar reais.
O grande problema é que isso raramente acontece. Na verdade, nunca acontece, porque nós vivemos mundos paralelos. A realidade e a imaginação andam de mãos dadas dentro da nossa mente, e principalmente dentro do nosso coração, e isso raramente trás algo de bom.
Adorava ter-me apaixonado, porque isso iria levar-me para locais onde eu não poria a minha mente a trabalhar, mas tal não aconteceu.
Porque, para que a paixão aconteça, primeiro temos que estar apaixonados por nós, e o meu amor por mim foi desaparecendo com o passar dos dias.
E, quando estás contrariada dentro de uma situação, tudo se torna muito penoso, e forçado. Os momentos de beleza desaparecem. Os momentos felizes dão lugar a nada.
Com o passar dos dias, a vontade de estar e conhecer melhor aquela pessoa desaparece e aparecem todos os outros sentimentos que nunca deveriam chegar.
O medo de magoar e de ser magoada levou-me a desaparecer, levou-me a perder o norte dentro da minha vida. Em alguns momentos, nada parecia ter um propósito ou um objetivo real.
Volto a esta história algumas vezes para me reconhecer nela, para perceber que me posso perder com muita facilidade.
Esta história marca um dos pontos baixos das minhas escolhas, porque escolhi tudo a resto, em detrimento de mim.
Deixei que o mundo me comandasse mesmo sabendo que, ali, deixei a minha voz silenciada.
Este é aquele momento em que volto a afirmar que não me deixarei cair novamente nas armadilhas da vida, que me prometo ouvir.
Mas…
Esta história continua a ser um lembrete de que, por mais que eu ache que nunca vai acontecer, porque estou mais madura, mais consciente de quem sou, por vezes caímos novamente no silêncio auto imposto.
Na vida, as brisas sempre me destruíram, as paixões foram vividas com tudo e acabaram da mesma forma que começaram num turbilhão cheio de prazer e de lágrimas de crocodilo.
Eu sou uma mulher de paixões que sempre irá tentar fugir das brisas.




