Inês Biu Faro

por Inês Biu Faro

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A primavera chegou e com ela uma porta do meu sótão que se fechou. Nunca pensei que esta alguma vez se fecharia, mas acabou por acontecer. Lembram-se de que sou uma tecedeira de afetos, mas que, quando o laço é cortado do outro lado sem dó nem piedade, eu não volto atrás, certo? Pois, bem, foi o que aconteceu.

Este laço, por culpa do tempo e de tantos erros, já estava com alguns cortes e costuras de pedaços que não faziam falta, dando espaço para remendos de momentos vividos bem mais bonitos. Infelizmente, este laço foi cortado do outro lado e eu já não tenho força para voltar a coser mais bocados que sejam. Lutei, durante muito tempo, para que se mantivesse, mesmo quando tive de esticar o laço para manter uma distância de segurança — este laço já tinha sido ressignificado de amor para amizade. Isso não foi compreendido do outro lado e, quando mais uma vez pedi essa mesma distância, foi quebrado totalmente de forma inesperada.

Já não tenho força para lutar mais contra a dependência que ele tem de mim. Não é contra ele. É contra o que ficou, contra aquilo que ele alimentou dentro de si e eu tentei ajudar a ultrapassar durante tantos anos. Cheguei mesmo a tentar ensinar-lhe aquilo que aprendi com a minha psicóloga: «A tua felicidade só depende de ti mesmo. Não pode, nem deve depender das outras pessoas.» E infelizmente era isto que acontecia.

Com a dependência vieram os ciúmes, as palavras mal interpretadas, os julgamentos, as pressões, o sufoco! Por mais que pedisse que não o fizesse, fui colocada num pedestal onde não queria estar. Nunca fui nenhuma santa. Eu erro. Eu evoluo. Eu sou humana. E não quis nunca ser endeusada. Ainda assim, ele não foi capaz de me colocar onde eu também o tinha deixado, como amigo. Como grande, grande amigo.

Não era das pessoas que me conhecia a fundo — embora achasse e dissesse sempre que sim —, mas não nego que me conhecia bem. Apoiava-me, ajudava-me, aconselhava-me e dava-me todo o seu carinho. Só não sabia quando devia sair da minha frente, quando eu precisava de ficar sossegada no meu canto para retemperar energias. No fundo, mesmo depois de tantos anos, ainda não sabia reconhecer os meus humores e respeitá-los.

Fiz tudo o que sabia e podia para que esta amizade funcionasse, para que o que ficou depois do amor fosse saudável, bom e feliz para ambos. No entanto, ao que parece, fui mal interpretada no meu último pedido de afastamento para curar feridas e o laço foi cortado, por ele! Por causa da sua dependência, por achar que iria fazer-me bem e «facilitar-me a vida», mas só fez mal a ambos, sobretudo a si mesmo que, pelos vistos, ainda tem tanto para caminhar no seu amor próprio e para distinguir as pessoas que o rodeiam, como rodeiam e como pode realmente conhecê-las, em vez de achar que as conhece e, afinal, não.

A primavera é a estação das despedidas e das novidades, dos fins e dos começos. E, neste caso, foi um fim. O final triste de uma amizade que, para mim, seria para a vida toda, mas só eu remava nesse rio. Eu consegui ressignificar toda a relação e carinho sem perder o vínculo.

Espero que a primavera lhe traga maturidade, discernimento e, sobretudo, noção do que precisa de melhorar e curar em si. Que procure as ajudas certas e se cuide mais do que tudo.

Ele quebrou o nosso laço, dói, deixará de doer e eu continuarei a desejar que ele seja feliz e melhor pessoa.

About the Author: Inês Biu Faro
Inês Biu Faro
Ainda não conhecia o abecedário quando começou a "escrever". Enchia cadernos com linhas "escritas" à sua maneira, com todos os seus contos de fadas e sonhos. Ao longo da escolaridade, aprimorou o gosto pela escrita e desde que se lembra que escreve diários. Não é fácil ser várias mulheres numa única e só os diários a compreendem, por falar consigo mesma. Escreveu, escreve e escreverá sempre com o coração, com emoção, de uma mulher para tantas outras, de um coração para tantos outros. Tem um manuscrito por editar. Será desta que sairá do forno? Esperemos que sim!

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