Sofia Reis Cardoso

por Sofia Reis Cardoso

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Há inícios que não são para durar para o resto da vida. Estão condenados a terminar desde o primeiro dia. Os sinais estavam lá todos: a hesitação, a dúvida, o medo, a preocupação. Mas só há pouco tempo aprendi que a dúvida é sempre um não. No entanto, a vida tinha muito para me ensinar para ficar por ali. Foram precisos 12 anos para fechar a porta. Diria, até, 14 anos para perder a chave dessa porta, impedindo que ela se voltasse a abrir, fosse de que maneira fosse!

Hoje, falo sem qualquer máscara sobre este final – o final da minha relação amorosa que vivi com aquele que julguei ser o amor da minha vida. Preciso de o escrever, de o verbalizar, para encerrar definitivamente um ciclo que nunca julguei custar tanto a fechar!

Quando as pessoas mais próximas tiveram conhecimento do término da relação, a pergunta que se colocou foi sempre: «Porquê? O que se passou?» Os comentários: «Não estava nada à espera!» «Mas vocês davam-se tão bem!». Poucas, muito poucas, foram as pessoas que disseram «qualquer que seja a tua decisão, estou do teu lado!». Para alguém que já viveu uma situação destas na pele, esta é a única frase que queremos ouvir! Quando queremos contar os motivos, desabafar, gritar, partilhar algo tão íntimo, nós vamos procurar as pessoas para o fazermos. Naquele momento, a empatia que tenho leva-me a acreditar que não queremos nada mais, após tão dura revelação, que não um abraço e compreensão.

Compreendi que, para muitas pessoas, principalmente para as mais próximas, tenha sido difícil encaixar a decisão da separação — principalmente, durante o período tão conturbado que me encontrava a atravessar, ainda em recuperação da minha doença, diagnosticada cerca de um ano antes. Recordo-me de uma vizinha me ter confidenciado que, uns tempos antes, nos tinha observado a sair do carro e que, antes de nos deslocarmos para dentro de casa, nos tínhamos abraçado e beijado e que ela própria tinha comentado com o marido que também gostava que ele a tratasse assim. A verdade é que nos beijávamos, abraçávamos, dizíamos um ao outro que nos amávamos, todos os dias, mais do que uma vez ao dia.

Em todos os anos desta relação, sempre desejei que entre nós estivesse tudo a 100 por cento. Usava muito esta expressão e agora sei que não é possível, mas, na minha cabeça, era. Sempre que havia algum desconforto, algo que nos tivesse incomodado, gostava que fosse logo falado, para que não gerasse conflitos e tivesse a certeza de que estávamos bem; para que, pelo menos nesse campo, não estivesse preocupada, de forma a dar-me conforto e força para outras situações da vida mais desafiantes. Ambos do signo Leão, em tudo agíamos intensamente: quando estávamos bem, mas também e, principalmente, quando discutíamos.

Hoje, sinto-me conformada e leve com o final de que falo, porque conciliei que os momentos maus e as consequências que esta relação me trouxe foram superiores aos benefícios e atingi essa conclusão com maior certeza, profundidade e leveza para poder falar e escrever sobre isso. Mas não escondo que, obviamente, teve os seus momentos bons e felizes. Um dos momentos preferidos eram os jantares caseiros que fazíamos: muitas das vezes, nem esperávamos pelo fim de semana, em que ficávamos horas a fio a conversar à mesa e não dávamos pelo tempo passar. Partilhávamos tudo (ou quase tudo) — pelo menos, eu acreditava que sim — e adorávamos comer e beber em conjunto.

Separavam-nos 26 anos! Verdade! Uma diferença muito grande em todas as vertentes. Mas tantos outros eram os motivos que nos aproximavam! E o mais difícil de conceber: uma relação em que duas pessoas traziam sequelas de uma infância e crescimento muito beliscados, que culminou numa ligação em que as duas partes tinham um tanto de dependente emocional e um tanto de manipulador, confesso! No meio da minha fragilidade e dependência, agora, olho para trás e reconheço que, para me defender, eu própria tive comportamentos manipuladores porque há momentos em que temos de aprender «a jogar o jogo» da outra pessoa para conseguirmos sobreviver.

Durante muito tempo, compactuei com comportamentos que julgava serem totalmente normais numa pessoa que dizia amar-me mais do que tudo na vida, para quem eu era pele, razão e alegria de viver. Mas a verdade é que, no limite, ao aceitar todos esses comportamentos, cada vez mais me anulava a mim própria e deixava de me conhecer.

No momento mais frágil da minha vida, a pessoa que eu tinha no maior pedestal revelou tudo o que eu nunca quis ver! E não, não estou a falar de traição e infidelidade. Estou a falar de muito mais do que isso!

Hoje, olho para trás, para tantos momentos em que discutíamos e eu dizia a mim mesma que ia sair de casa, ia terminar a relação, mas bastavam dez minutos sem ele e parecia que não havia mais ar para respirar. Era um sufoco, uma incapacidade de ver a vida além daquele amor! Tentei dezenas e dezenas de vezes. Nas tantas vezes que discutíamos: porque eu fui jantar com a minha melhor amiga e demorei, porque respondi a uma mensagem de um amigo, porque ele não me atendia o telemóvel e eram 22h ou 23h e não dava notícias desde manhã, porque eu lia mensagens ou via coisas que não queria ver. Tudo sempre negado. Tudo sempre produto da minha cabeça, das minhas inseguranças e da minha fragilidade. Rapidamente, perdia a força que me tinha levado a querer terminar tudo e voltava para casa e para os seus braços. Voltava para o peito onde adormeci tantas noites, convencida de que era o homem da minha vida, que me preenchia em momentos tão simples, que me fazia chorar só de olhar para ele, que me arrepiava a cada abraço, a cada beijo, que me deu o maior prazer e amor do mundo até então, ou que eu julgava que era o maior.

A porta fechou-se em junho de 2023, mas só perdi a chave definitivamente no decorrer do ano de 2025. Lamento, mas não quero qualquer contacto. Já perdoei. Não esqueci. Desejo muito que seja feliz, mas não quero mais que faça parte da minha vida, seja de que maneira for. Este também foi um luto, um luto de 2 anos que doeu muito, foi muito longo, mas está fechado para sempre.

About the Author: Sofia Reis Cardoso
Sofia Reis Cardoso
Escrever, ler e dançar são as suas formas preferidas de passar o tempo. Estudou Direito, trabalha no Departamento de Contencioso de uma Seguradora, mas é nas letras e no papel que encontra o seu refúgio e a sua maior concretização. Natural de Tomar, entregou o seu coração a Lisboa aos 18 anos e é com a capital que mais se identifica. A Emootiva é uma extensão daquilo que a apaixona e onde quer continuar os seus passos, juntamente com outras escritoras.

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