por Sónia Brandão

Escrever para a miúda que fui…
«Olá, garota! Como estás?
Bem. Eu sei que sim. Não precisas de responder: Eu vivi o que tu vives, agora, e parte do que se segue.
É giro olhar-te, ver-te a aproveitar os momentos únicos por onde estás agora.
É bom perceber o quanto és feliz, mesmo sem teres plena consciência de que o és. Mais tarde vais dar muito mais valor ao que estás a viver agora, acredita.
Quando pensei em escrever-te, tive dúvidas sobre o que te poderia dizer. Conheço-te tão bem e sei o caminho que a vida te reserva. É estranho não te poder indicar por onde deves seguir, mas, se assim não fosse, perderia a graça.
Sei onde te vais perder, onde te vais encontrar e reencontrar vezes sem fim. Sei o resultado das tuas escolhas, boas ou não tão boas.
Mas nada disso faz sentido partilhar contigo, porque onde estás agora só existem brincadeiras, momentos felizes e birras por nada. Só existe a alegria de ser criança, mesmo querendo crescer para deixar de o ser.
Talvez deva seguir o cliché e dizer-te para aproveitares o agora, para viveres o presente, sem a pretensão de conheceres o amanhã, mas connosco isso não funciona.
Não funciona porque todo o «mundo» que te preenche aguarda pelo amanhã, seja o verdadeiro, seja o que crias, momento após momento, dentro de ti.
És um poço sem fundo de histórias. És uma criadora de diálogos infinitos. Posso confidenciar-te que, no futuro, não irás mudar. Vais continuar a ser essa que és hoje. Mais refinada, talvez, mais seletiva com o que crias, mas a mesma.
Vais viver intensamente.
Vais crescer antes do tempo dos outros, mas naquele que é o teu.
Vais sair fora do «socialmente correto», vezes e vezes sem conta.
Vais chocar parte do teu mundo atual.
Infelizmente, vais perder parte do teu mundo atual: momentos, oportunidades, pessoas que nunca vais conseguir recuperar, por opção, por destino.
Lamento pelos momentos em que te vais esquecer de ti, porque os outros precisam da tua força, mesmo quando tu não sabes onde ela está.
Vais tornar-te uma lutadora pelos que amas, uma guerreira sem espada, mas com tudo o resto que nos torna no que somos hoje.
Mas, no meio de todas as provas da vida, não te esqueças de que existes. Não tentes viver de acordo com as regras que os outros acreditam existir. Vive de acordo com o teu momento, para te perderes menos.
Vive como se o mundo fosse teu. Vive!
Eu espero-te aqui, onde estou agora, sabendo que vais cá chegar porque tu és eu.»
Poderia dizer tudo isto à criança que fui, mas ela não iria entender nada, porque ainda não o viveu.
Mas talvez só deva escrever:
«Sê feliz. O resto irá aparecer no momento certo!»




