por Inês Biu Faro

Meu amor, minha Inêsinha, antes de tudo, devo-te um enorme pedido de perdão. Fiz-te crescer cedo demais. Aos quatro anos começavas a ter uma perceção do mundo que não era a esperada. Achaste que tinhas de crescer para te defenderes, porque os crescidos em quem confiavas que o fizessem já não estavam unidos e, ainda que se mantivessem a defender-te, a tua perceção não era essa.
Os teus primeiros anos acabaram por ser vividos a correr e criaste uma muralha à tua volta, para que não atingissem o mais bonito e puro que tens em ti: a imaginação, o amor, a pureza, o brilho nos olhos e, até, os pozinhos de pirlimpimpim. Na verdade, essa muralha não foi forte o suficiente: dás sempre demais, sentes sempre demais. O que, para os outros, é demais, para ti é normal, é seres tu, e não sabes ser de outra maneira.
Minha Inêsinha, lembras-te quando sonhavas que, aos 30 anos, serias uma jornalista de sucesso, com uma coluna de conselhos, artigos e reportagens semanais, um marido de sonho, dois filhos lindos e um jipe que te fizesse sentir ainda maior do que a tua altura?
Já sonhavas que a escrita te daria toda a tranquilidade e vivências que hoje em dia te dá, e mal sabias tu que, dentro deste conjunto de sonhos de menina, seria o único que realmente se manteria. Porque, aos 30, estavas tu a tornar-te efetiva na empresa onde trabalhas há já onze anos, sem marido nem filhos e, muito menos, carta de condução, quanto mais um jipe.
Não me esqueci nunca de ti e dos teus sonhos, mas, com o passar do tempo, abdiquei do sonho do jornalismo e ressignifiquei a minha escrita, muito embora, às vezes, pudesse ter uma coluna de conselhos numa revista cor-de-rosa. Escrevo com sentimento, sobre sentimentos, sobre o que é «ser Inês», e é aqui que dou asas e voz à menina que habita em mim e que nunca me abandonará. Confio que tu ainda cá estás, quando puxo pela minha imaginação, pela criatividade e pelos sonhos, pela maneira como amo crianças, pela maneira como abraço quem mais amo. Tu pedes colo a quem confias, abres-te, relaxas e deixas-te levar, permites-te ser, existir e persistir na minha mente de adulta.
Abdiquei de outros sonhos teus, minha menina linda, para que pudesse realizar outros de mulher. Nunca me esqueço de ti, vejo-te de cada vez que me olho ao espelho: o sorriso feliz de orelha a orelha, os olhos grandes e curiosos, o narizinho empinado e altivo, como quem diz: «Sou e sempre serei Rainha de mim mesma!»
Mas preciso de te abraçar. Quero que sintas o quanto preciso do teu perdão, por não teres vivido a tua infância e adolescência como mais merecias, por teres sido logo adulta e te encheres de máscaras que, agora, quebras aos poucos. Não me sinto triste. Muito pelo contrário, sinto que revivo a minha infância quando estou rodeada de amor, ou de crianças, ou de amigos que também gostam de ser crianças quando nos juntamos todos.
Preciso de te abraçar para que saibas que, muito embora tenhas a sensação de que te abandonei, isso não é verdade. Nunca te deixei. Escondi-te para não te magoar, para não seres magoada. Não sendo eu mãe de ninguém, acabei por ser tua mãe — sou mãe de mim mesma. Protegi a tua inocência.
Lembras-te quando íamos passear, ou só para a escola, e levavas sempre uma mochila com as tuas brincadeiras? Com o teu mundo, para que rapidamente tivesses entretenimento. Não eras tu quem tinha de se preocupar com essa mochila, mas sim os adultos, que mal sabiam o que tinhas lá dentro e quão importante era, para ti, teres variadas coisas que puxariam pela tua imaginação e para que pudesses brincar sozinha e sossegada.
Não só te fiz crescer muito rápido, como quase te fiz perder a voz. Perdão, minha querida. Perdão, minha Inêsinha. A tua defesa eram os gritos, conseguires expulsar os outros das tuas brincadeiras solitárias, do teu mundo imaginário, das histórias que criavas e que, com exceção dos gritos, faziam de ti uma menina tão sossegadinha. Os gritos constantes levaram-te a uma vida de rouquidão, até que o Papá reparou e te ajudou, para depois te passar para as mãos da Mamã e, agora, tenho eu uma voz cada vez mais audível, sonora e a chegar onde queremos e precisamos.
Ainda que te tenha falhado, ao fazer-te crescer rápido demais, quero que saibas que nunca te abandonei e que, além de te pedir perdão, quero pedir-te que não me deixes, que não me abandones. Quero cuidar de ti. Quero abraçar-te muito e dizer-te que não faz mal chorar, não faz mal ter medo, não faz mal quereres aparecer mais vezes e pedires que eu — e os outros — respeite a tua voz e a tua essência.
Quero que faças o caminho da vida lado a lado comigo, que sejamos uma equipa, para que a Inês de amanhã seja a mais bela comunhão entre tu e eu, a Inês de hoje, num futuro ainda desconhecido, mas desejado sempre para melhor.
Preciso que acredites em mim, que saibas que cuidarei cada vez melhor de ti e que serás sempre Rainha de ti mesma e do meu coração. Confia em mim. O facto de te ter feito crescer rápido demais fez de mim uma mulher produtiva, criativa, rápida no encontro de soluções para problemas, amorosa, amistosa e empática. Por te ter feito passar por esta dificuldade, tenho tentado que os nossos dias sejam mais fáceis e leves. Ambas merecemos.
Segura na minha mão com força, como eu seguro na tua. Confia em mim. Vamos ser mais e melhores a cada dia. Seguiremos juntas na nossa estrada de tijolos amarelos, como sempre sonhámos.
Perdão, Inêsinha. Abraço-te e amo-te, minha menina linda.




