Sofia Reis Cardoso

por Sofia Reis Cardoso

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Tenho procurado ouvir o som do meu coração: os batimentos, aquilo que ele me diz, como me guia/orienta, de acordo com os meus valores.

A música que vive dentro de mim tem notas de carinho, empatia, verdade, leveza, ponderação, humildade, mas também de receio, dúvida e impulsividade.

A música que procuro pôr a tocar todos os dias da minha vida é aquela que demonstre totalmente aquilo que eu sou, com a maior transparência possível — primeiro, a mim e, depois, a todos aqueles que convivem comigo e que me rodeiam!

Não sou uma pessoa que goste de cantar, apenas de cantarolar, mas a verdade é que sei muitas músicas de cor. Aquelas que têm mais significado para mim e que ouvi tantas, mas tantas vezes, que as letras não saíram da minha memória.

Ao longo dos anos, o meu gosto musical também se foi alterando, conforme a fase de vida em que me encontrava. Já gostei de ouvir música mais pop e comercial, como hoje em dia é um gosto para mim ouvir apenas música instrumental, muitas vezes jazz, apenas para me fazer companhia, ou em momentos em que preciso de me acalmar, ou até concentrar.

Também oiço outro tipo de música totalmente diferente quando quero dançar — principalmente, dançar no âmbito das aulas de dança que tenho frequentado ao longo do último ano e meio. Para além da salsa e da bachata, que têm muitas músicas muito alegres, a minha grande paixão reside nos ritmos africanos, com maior realce na kizomba e no semba, que têm músicas e batidas que fazem cada bocadinho do meu corpo vibrar.

Com tudo o que referi, apercebo-me de que, realmente, a música está sempre presente na minha vida, em várias circunstâncias e, em determinadas fases, com mais vigor do que noutras. Muitas das vezes como companhia. Outras como calmante, em momentos de diversão ou até mesmo de pura tristeza e sofrimento.

Ainda a propósito da dança, desde pequenina que este hobby faz parte da minha vida, mais uma vez com maior ou menor intensidade, dependendo da fase em que me encontrava. Mas desde, pelo menos, os 4 anos, se não estou em erro, que fiz parte, durante muitos anos, do rancho da minha aldeia. O meu avô materno foi um dos fundadores deste rancho e, inclusive, faleceu em 1999 como presidente do mesmo. Para além de o rancho ser uma grande paixão minha, este fator de sangue sempre teve um grande impacto em mim, para nunca me ter conseguido afastar totalmente, ainda que, hoje em dia, não participe nas atividades, mas idealizo sempre que ainda vou voltar a fazê-lo.

Durante os 50 dias em que estive internada no Hospital de Santa Maria, em 2022, realizei muitos exames auxiliares de diagnóstico. Um dos que me deixou bastante preocupada, pois não sabia se iria conseguir controlar a minha ansiedade, foi uma ressonância magnética que realizei, a determinada altura, à coluna e a uma outra parte do corpo que, sinceramente, já não me recordo qual foi.

Sabia que fazer este tipo de exame me fazia sentir de alguma forma claustrofóbica e estava numa fase em que estar num sítio fechado, para além do quarto a que já me tinha minimamente habituado, me fazia sentir, ainda mais, que não tinha controlo sobre nada.

Como, durante muitos anos, pedi ao meu pai para gravar as atuações do rancho que ele assistia, a determinada altura decidi colocá-las no YouTube. Esses vídeos fizeram-me muita companhia na fase do internamento em que já suportava o telemóvel de alguma maneira e vi esses mesmos vídeos, vezes e vezes sem conta, pois as redes sociais eram um lugar do qual eu fugia.

Então, dei por mim, quando me encontrava a fazer a tal RMN, que demorou mais de uma hora, a rever na minha memória uma das atuações do rancho. Repetia as imagens na minha cabeça, de olhos fechados, enquanto ouvia um zumbido horrível e me sentia gelada. Quando terminou o exame, chorei. Pensava que iria ser bastante mais «doloroso» aguentar estar aquele tempo deitada naquelas condições. Senti um alívio imenso e, hoje, reconheço como aquele vídeo me ajudou a encarar um momento tão difícil para mim.

O poder da música na minha vida reflete-se ainda, muitas vezes, quando parece que as letras foram escritas por mim ou a pensar exatamente na minha vida, ou naquilo que estou a sentir. Neste momento, ocorrem-me duas músicas que, para mim, são muito especiais e, ao mesmo tempo, muito diferentes. Ouvi-as com mais regularidade do que agora, em momentos distintos da minha vida, mas lembro-me de que foram músicas que ouvi e cantei, maioritariamente, quando estava a conduzir.

A canção «Como Antes», de Matias Damásio, é uma dessas músicas que me fez correr muitas lágrimas nas várias vezes que fiz a viagem entre o Cadaval e Lisboa, na fase inicial da minha recuperação, quando necessitava de fazer uma injeção diária, que só podia ser administrada em contexto hospitalar.

A letra:

«Olha nós, às vezes, tropeçamos
E há dias, quase caímos
Olha nós, somos humanos
Sorrimos, mas também choramos
Quero que tudo seja como antes
Nossas mãos no mesmo volante
Em direção à lua
Em direção à lua
Quero que tudo seja como antes
Nossas mãos no mesmo volante
Em direção à lua
Em direção à lua
E viva o nosso amor
E viva o nosso amor
E viva o nosso amor
E viva o nosso amor»

Nunca a letra daquela música fez tanto sentido como naquela altura, quando me sentia incapaz de tantas formas e com muitas saudades daquela que era a minha vida, quando era autónoma, funcional e me sentia útil. Como é óbvio, todas essas alterações também tiveram muito impacto na relação amorosa que vivia e esta música era ouvida e cantada também em conjunto, com melancolia, mas também com muita esperança.

A música «Renasci das Cinzas» é outra das canções que me toca profundamente no coração, principalmente por este excerto:

«Eu renasci das cinzas pronto pra vencer
Nenhum lugar é alto pra quem quer voar
Não há montanha que Deus não possa mover
E as portas que ele abriu, ninguém mais vai fechar»
(português do Brasil).

Assim também eu me sentia, a partir de 2023, como uma fénix que tinha renascido das cinzas.

About the Author: Sofia Reis Cardoso
Sofia Reis Cardoso
Escrever, ler e dançar são as suas formas preferidas de passar o tempo. Estudou Direito, trabalha no Departamento de Contencioso de uma Seguradora, mas é nas letras e no papel que encontra o seu refúgio e a sua maior concretização. Natural de Tomar, entregou o seu coração a Lisboa aos 18 anos e é com a capital que mais se identifica. A Emootiva é uma extensão daquilo que a apaixona e onde quer continuar os seus passos, juntamente com outras escritoras.

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