por Inês Biu Faro

«Cause every night I lie in bed. The brightest colours fill my head. A million dreams are keeping me awake. I think of what the world could be. A vision of the one I see. A million dreams is all it’s gonna take. A million dreams for the world we’re gonna make.»
– A Million Dreams – The Greatest Showman
Nascida sob o signo de Euterpe, filha de músicos e criada numa família melómana, estranho é o meu tipo sanguíneo não ser em clave de sol ou de fá.
Ao longo das minhas 36 primaveras, a música nunca me deixou. Muito embora eu tenha estado afastada dela uns anos, rapidamente voltou — e para nunca mais a largar. Passei pelo violino e não gostei; troquei pela percussão. Cresci na banda filarmónica e, ao mesmo tempo, no coro. Aos 19 anos, decidi ter aulas de canto com o meu pai. Estava cansada de estar sempre rouca — e não é que os santos de casa fizeram mesmo milagres?
Com a descoberta da minha voz veio, também, a descoberta da minha autoestima e dos meus sonhos musicais. Uns anos depois, o meu pai disse-me que tinha descoberto o meu diamante, mas que quem o lapidaria seria a minha mãe. E assim foi. Tenho «um bicho» nas cordas vocais que me surpreende sempre que abro a boca. Canto imenso — qualquer música de que goste, do pop à ópera —, sempre cheia de alma. A música vive totalmente em mim. Encho o meu coração de cada vez que consigo encher os corações dos que me ouvem. Canto pelos corredores do trabalho, do supermercado, pela rua e nos palcos. Canto em coro, em dupla ou a solo, e sou imensamente feliz a cantar, a dançar e a descobrir — quase todos os dias — novas músicas que combinam comigo.
A música vive em mim desde o dia da minha conceção e eu viverei enquanto houver música em mim. Dos sonhos, ao amor, ao desejo de gravar álbuns, de cantar, de sair da casca! A música é o meu maior e melhor caminho para a descoberta de quem eu realmente sou enquanto mulher e enquanto ser humano. A música é das coisas que mais feliz me faz na vida! E sabem que mais? Eu nem sequer sei lê-la! Ou melhor, conheço a linguagem, reconheço as figuras numa pauta, conheço todas as notas e ritmos — mas não sou tão rápida ou eficaz para poder cantar tudo certo mal olho para uma partitura. Para compensar, tenho um excelente ouvido! Apanho tudo, estudo as letras mais tarde e as melodias vão saindo.
Ainda assim, há um outro «culpado» por eu ser melómana: o meu Avô Biu. Foi ele quem mais incentivou os filhos e os netos a ingressarem na banda filarmónica, a entrarem no conservatório, a seguirem os seus sonhos musicais — e é quem mais nos aplaude de coração cheio e orgulho reforçado. A nossa família é toda Música! Poderia até ser o nosso apelido: Inês Música! Perfeito!
Tudo isto para vos contar que, toda a minha vida, tenho tido a música como melhor amiga. Tratamo-nos por tu. Acordo com música e adormeço com música. A minha vida tem banda sonora, como nos filmes! E todos os momentos importantes têm uma música que os marca. Sobretudo, na escrita. Na grande maioria das vezes, tenho playlists a tocar músicas suaves que me inspiram. Ou uso uma em loop e escrevo o que me apetece enquanto a oiço. Não são análises musicais. São a companhia perfeita para que a inspiração venha até mim e discorra todas as minhas ideias para o teclado. Sinto que escrevo muito melhor quando tenho música a acompanhar-me — como se escrevesse letras sobre as pautas, e por aí adiante, as minhas palavras fossem as notas e eu pudesse cantar o que escrevo. Está na altura de gravarmos um podcast, não?
Também é comum ir na rua a ouvir música e pegar no telemóvel para escrever qualquer coisa de que me lembrei. A música tem sobre mim — e acho que sobre toda a gente — um poder maravilhoso de gestão das emoções: desde ajudar-me a chorar mais um pouco para aliviar, a deixar-me ainda mais feliz e os meus dias mais coloridos.
É-me impossível imaginar que haja quem não goste de música… Em tudo há música! Tudo! Não tem de estar na rádio, nas vozes ou nos instrumentos — o vento nas árvores é música, o assobiar dos pássaros é música, até as rodas dos comboios nos carris são música. O tamborilar dos dedos numa superfície é música. Em tudo há ritmo. Em tudo há melodia. Em tudo há música!
Até o silêncio é música. Quando se torna ensurdecedor dentro de mim, quando me fecho em mim mesma para me ouvir, para dar voz à minha consciência, para sentir o que de mais puro e profundo tenho em mim — e me canta o que devo fazer. A intuição é música! E é ela que mais canta em mim.
Toda a música é necessária — nem que seja quando a caneta se encosta no papel, quando os gritos se entopem na garganta ou os gemidos acompanham as lágrimas. Em mim, não há boa ou má música: há a minha música. A que me acompanha todos os dias, a que bate no meu coração, aquela que me apetece ouvir a cada momento do dia. Aquela que já conhecia, mas aprendo a cantá-la e passo a adorá-la ainda mais, identificando-me com cada frase. Visto a personagem, mas há sempre algo de Inês naquelas meninas que interpreto. E, em cada uma delas, há um pouco de Inês. É uma partilha — como se eu tivesse nascido para elas e elas para mim. Passam todas a habitar o meu coração, a crescer e a amadurecer comigo, a marcarem um determinado período da minha vida.
Se dizem que ler nos faz viajar, também a música nos faz viajar — e conhecer outras culturas, reconhecer melodias e ritmos utilizados em comunhões diferentes das que já conhecemos, ou, ainda, com instrumentos e vozes típicas de cada nação. A música transporta-me para o passado, para o presente e para o futuro. A música tira-me os pés do chão, dá-me asas — e vou até onde mais preciso a cada momento, quer esteja a sonhar com momentos futuros, com saudades de alguém ou com momentos que já vivi. Assim como sonhar que estou num estúdio de gravação com a Amy Winehouse ou ao piano com a Adele. A música também me tem ensinado outras línguas. Se aprendi inglês com os desenhos animados — e na escola, vá —, italiano comecei a aprender com a ópera e, só mais tarde, na faculdade. Alemão e francês aprimorei, também, com a ópera. E que dizer do «árabe» e do «servo-croata» que todos aprendemos na adolescência enquanto tentávamos imitar as Spice Girls e os Backstreet Boys? Até em francês do Haiti, checo e russo cantei. Mesmo não tendo traduções literais, há sempre uma ideia que é preciso transmitir — para mim mesma e para quem me vai ouvir. A música fez de mim uma poliglota!
Do fundo da minha alma e do meu coração brotam as melodias mais bonitas — mesmo aquelas em tons menores e notas mais graves, em andamentos pesados e lentos, são necessárias para que haja equilíbrio em mim, para que todas as minhas emoções sejam respeitadas, incluindo as emoções que interpreto. Por mais que queira levar a música como hobby, levo-a muito a sério — atrevo-me a dizer: mais a sério do que muitos profissionais. Não é à toa que, mesmo estando nos bastidores, fiz dela a minha profissão. E sou feliz. Sou tão feliz por ter música, por dar música, por ser música.
Do fundo da minha alma e do meu coração brotam as melodias mais bonitas — e aqueles capazes de as ouvir e de as cantar comigo ganham um lugar especial na minha vida.
Toda a música é necessária. Música é coração, é alma. Música é vida! Um dia, perguntaram-me qual era a minha música preferida e, sem pensar duas vezes, dei a resposta que me fez sentido na altura — e que assim será para sempre:
A minha música preferida é a gargalhada dos meus Avós.




