Estefânia Barroso

por Estefânia Barroso

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Fui desafiada, pela emootiva, plataforma na qual participo, a escrever sobre a criança que ainda vive em mim. Agarrei a proposta e propus-me realizar um exercício: pensar e escrever sobre o que resta, na adulta que sou hoje, da criança que fui. Partilho contigo o resultado dessa análise.

A criança que guardo, em mim, tem o dom de continuar a deslumbrar-se com as coisas que a deixavam maravilhada na sua infância.

A criança que guardo, em mim, adora um dia de sol. E adora ainda mais os primeiros dias de sol, nos dias de primavera amenos, no campo, quando ela podia (e pode) rebolar na erva fresca, pintada de margaridas-menores, rindo por qualquer tontice que me tenha passado pela cabeça.

A criança que guardo, em mim, continua a não gostar de dias de chuva. Mas ela, a criança, continua, isso sim, a gostar de saltar nas poças de água a pés juntos, apenas e só para ver a água «espirrar» para todo o lado. E gosta, como sempre gostou, de andar à chuva, sem medo de se molhar, desde que em seguida lhe seja permitido tomar um bom banho quente!

A criança que guardo, em mim, continua a gostar de «perder» tempo com brincadeiras que há muito devia ter abandonado. Essa criança continua a olhar para as nuvens à procura de formas de objetos e animais, e continua a criar pequenas histórias através dessas personagens. Ela ainda gosta de brincar a fazer bolas de sabão, apenas e só para observar as bolas coloridas a voar por aí, donas de mil cores, até explodirem num nada de vida.

A criança que guardo, em mim, continua a recitar velhas ladainhas e a realizar pequenas brincadeiras, como cantar às joaninhas (que continuo a adorar) «Joaninha, voa, voa, que o teu pai está em Lisboa», ou a colher dentes-de-leão, gritando antes de soprar sobre eles: «O teu pai é careca?», explodindo numa gargalhada quando o dente-de-leão nos responde que o pai é mesmo careca.

A criança que guardo, em mim, continua a fazer amizade com todo o tipo de animais que com ela se cruzam na rua. Essa criança continua a ter longas conversas com eles, observando os seus olhares inteligentes e acreditando, plenamente, que se estão a entender na perfeição.

A criança que guardo, em mim, não perdeu o dom de ficar maravilhada com os pequenos mimos que nos damos de quando em vez: comer um gelado ao fim da tarde; saborear um chocolate de olhos fechados, enquanto nos evadimos para um pequeno mundo de sensações. A adulta que tomou conta deste corpo aprendeu a gostar de café e vinho, mas a criança que guardo, em mim, ainda gosta de se deliciar com um cacau quente, daqueles que nos deixam com uns bigodes que fazem rir os que estão à mesa.

A criança que guardo, em mim, acorda em sobressalto perante um saco de gomas que considera preciosas e que quer só para ela!

A criança que guardo, em mim, continua a realizar concertos em casa e no carro, cantando a plenos pulmões, dançando como se não houvesse amanhã pelos corredores da casa, e a rir de si própria quando se vê ao espelho nestas figuras!

A criança que guardo, em mim, continua a sonhar, ainda que de uma forma diferente. Em criança, sonhava com o dia «em que fosse grande». Curiosamente, hoje, ela sonha muito com o que ficou para trás, lá naquele tempo da infância, nas pessoas que a povoaram e já não povoam o presente, nos cheiros que ficaram incondicionalmente ligados a esses tempos de meninice.

A criança que guardo, em mim, continua a acreditar que as pessoas são intrinsecamente boas e que, por isso, uma atitude positiva pode mudar o mundo. Essa criança acredita que o mundo é um lugar bom de se viver e que todas as pessoas são boas até prova em contrário. Por isso, a criança que guardo em mim e a adulta que sou são felizes!

A criança que guardo, em mim, é cheia de ingenuidade e tolerância para com o outro e, por isso, continua com um olhar puro, de criança.

E sabes o que concluo no fim deste exercício de investigação pessoal?

Concluo que, se a criança que guardo em mim – a criança que eu fui um dia – me viesse visitar, reconhecer-se-ia neste adulto a quem deu lugar. Não deixei que, pelo caminho, se perdesse a inocência e a capacidade de me maravilhar com coisas pequenas; não perdi a capacidade de brincar, nem a capacidade de rir e, muito menos, perdi a capacidade de acreditar que amanhã será sempre um dia melhor. No fundo, tornei-me uma adulta guardando, como um tesouro, a criança que sempre habitou em mim.

About the Author: Estefânia Barroso
Estefânia Barroso
Nascida em terras francesas (Chambéry) em 1976, rumou a caminho de Portugal ainda na infância. Embora sonhasse ser veterinária, cedo percebeu que era no mundo das letras que o seu futuro se encontrava. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e iniciou a sua vida profissional como professora de Português. Mais tarde, após terminar Mestrado em Educação Especial, tornou-se professora de Educação Especial. Leitora ávida e autora dos livros “Contos com gente lá dentro” e “Contos com bichos lá dentro”, tem mantido o blogue “Steff’s World – a Soma dos Dias”, onde escreve crónicas e contos. Para além disso, escreve para jornais como o P3 do Público e alguns jornais locais.

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