por Sofia Reis Cardoso

Minha Sofia,
Somos uma só e, mesmo assim, não fui capaz de te proteger de tudo o que te fez sofrer e que ditou todas as tuas dores até hoje.
Hoje, aplaudo-te por tudo o que foste capaz de viver até aos meus 32 anos de agora. Por teres sido uma sobrevivente da nossa própria vida!
Uma vida em que te viste completamente perdida aos cinco anos de idade, com uma perda irreparável e que condicionou – e ainda condiciona – toda a tua vida! Não imagino como foi deitares-te todas as noites sem ouvires «Dorme bem, gosto de ti» pela boca da mamã. Como foi teres de comprar roupa de menina sempre com a ajuda do pai, mas a imaginar como seria ter a presença da mãe! Como deves ter passado noites e dias a imaginar como seria a vossa vida a quatro. Como a mamã reagiria ao primeiro namorado, como lidaria com o teu sofrimento e a tua felicidade. Qual a comida preferida que ela cozinharia para ti, o doce preferido. Se te juntavas à mamã para comer uma torrada e beber um leite ou um chá antes de ir para a cama.
Percebo, agora, por que, muitas das vezes, ficavas calada quando falavam de mães e de famílias. Era assustador o primeiro dia de aulas de cada ano letivo, em que tinhas professores novos e eles ainda não tinham conhecimento de que não tinhas mãe e pediam para fazer as apresentações. Sentias vergonha. Sentias-te diferente. Mas não era motivo para teres vergonha. Devias ter libertado sempre tudo o que sentias, em vez de guardares para ti, engolires o choro e fazeres de conta que estava tudo bem, só para não incomodares.
Mas sabes? Devias mesmo ter incomodado muitas vezes, quando querias apenas ser uma menina bem-comportada, tirar boas notas, limpar e arrumar a casa e deixar tudo organizado. Em todos aqueles momentos em que pediste desculpa a chorar de forma descompensada, por situações em que não tiveste culpa, só para a discussão terminar e poderes ter carinho e amor de volta. Peço eu desculpa, agora, do fundo das minhas entranhas. Peço-te muita desculpa por teres passado por tudo isso! Por ouvires daqui e dali e não poderes dar a tua opinião, porque senão eras completamente abafada. Por teres crescido muito mais depressa do que era suposto e portares-te como uma menina-mulher, quando a tua única preocupação deveria ser qual o próximo brinquedo com que ias brincar.
Não querias discussões e acabavas por ficar calada, preocupada em agradar para não existirem conflitos. Deixaste de saber daquilo que gostavas verdadeiramente, para te encaixares, conforme os gostos de quem querias agradar. Mas sabes, minha Sofia, foi o maior erro que podias ter cometido! Devias ter sido uma criança livre, com direito a viver a vida com a sua mãe, sem estar preocupada em agradar a todas as pessoas e, com isso, reprimir os teus gostos, sentimentos e emoções. Desculpa por te sentires tão abandonada; por, em determinada altura, pensares que a mãe não gostava de ti, que só gostava da mana e que ires ao cemitério ou não era igual para ela. Desculpa por não teres assim tantas memórias bonitas de infância, daquelas que deixam tanta saudade, como as que ouves outras pessoas falarem. Mas a verdade é que te retiraram a infância quando levaram a mamã, pois qual é a criança que consegue viver verdadeiramente feliz sem a sua parte principal? Por muito que tenhas tido pessoas que te acompanharam e deram muito amor, ninguém – mas absolutamente ninguém – pode substituir uma mãe.
Obrigada por me teres dado uma grande lição de vida, ao teres sobrevivido a uma infância pouco vivida e, aos 30 anos, teres feito as pazes com o luto da mamã. Foi muito duro viver tantos anos nessa mágoa. Não há comida, bolos, chocolates, malas, roupas, outras pessoas ou objetos que substituam a ausência da mamã. Mas tu sobreviveste à ausência dela enquanto criança e eu, adulta, nos dias de hoje, agradeço-te por nunca teres desistido e me teres permitido desenvolver uma mulher que não se deixou vencer pela mágoa e pela tristeza, mas que sempre quis ser doce, lutadora e sonhadora!
Obrigada, minha Sofia, por teres resistido à ausência de metade de ti e, ainda assim, não teres desistido de viver a nossa vida.

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Tão lindo, doce e emotivo ❤