Estefânia Barroso

por Estefânia Barroso

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Todos os anos sinto o mesmo: o mês de dezembro decorre a uma velocidade estonteante. Ele é o corre-corre de escolher e comprar a melhor prenda de Natal para aqueles que amamos, a decoração natalícia da casa, a preparação da ceia de Natal (com as horas intermináveis passadas num qualquer hipermercado a fazer as compras para esse dia). Ele é a preparação da passagem de ano (a roupa, a festa…), as horas passadas a fazer balanços do ano que está a acabar, a formular promessas para o novo ano… Ele é tanta coisa, tanto festejo, tanto jantar, tantas promessas para cumprir no novo ano, que os 31 dias do mês de dezembro são percecionados como se fossem pouco mais de dez dias. E eis que chega janeiro…

Janeiro é aquele mês, por princípio, de que as pessoas não gostam. Aquele mês que parece conter uns 90 dias que insistem em decorrer a um ritmo lentíssimo, sobretudo se comparado com as urgências do mês de dezembro. Aquele mês em que todos os excessos do mês anterior nos caem em cima. São os quilos a mais que se ganharam em todos aqueles jantares de Natal! São os gastos excessivos do mês de dezembro que, agora, se fazem sentir na carteira de janeiro. São as decisões tomadas no primeiro dia do ano que nos fazem sentir miseráveis: começámos a dieta, mas queremos comer o mundo inteiro! Iniciámos nova rotina no ginásio e temos dores em músculos e partes do corpo que desconhecíamos! É aquele mês do frio invernal (e infernal) que chega sempre em força em janeiro! Convenhamos: janeiro é o mês, por excelência, que nos faz sentir miseráveis!

Tantas e tantas razões, de facto, para não gostar do mês de janeiro! Ainda assim, este ano decidi fazer diferente e decidi procurar razões para gostar do mês de janeiro e mostrar-me grata a estes trinta e um dias que decorrem até ao primeiro dia de fevereiro. Depois de pensar um pouco, atirei-me à árdua tarefa de encontrar razões para estar grata no mês de janeiro! E não é que as encontrei?

Começo por agradecer ao mês de janeiro por me permitir descansar das festas e por me permitir voltar às rotinas. E, quando falo em rotinas, falo, por exemplo, em ter tempo para sofazar ao domingo à tarde, assistindo ao lento passar das horas, num dolce fare niente. Agradeço, também, o frio a sério. Sou dessas pessoas que gosta pouco do «chove, não molha». Gosto de calor. Aquele calor que nos obriga a andar de alças e chinelo. Calor e verão a sério. Mas, se é para ter frio, que seja frio a sério, também! Que seja aquele frio que nos exige ficar em casa, na companhia do lume que arde para nos aquecer. Aquele frio que nos obriga ao chá quente, ao aconchego da mantinha, enquanto lemos ou vemos um filme.

Agradeço ao mês de janeiro por ser um mês tão calmo, tão silencioso. Acabou o clima de festas ruidosas. Estamos em modo ressaca: queremos calma, queremos paz, queremos silêncio. E isso, depois de um mês tão corrido e tão barulhento, sabe a paraíso!

Agradeço a janeiro por não me obrigar a grandes alegrias, nem a grandes entusiasmos. Permite-me apenas existir, num modo de poupança de energia. É um mês que compreende a nossa vontade de ficar quietinhos, no nosso canto, sem sentimento de culpa.

Janeiro também merece o meu agradecimento porque é aquele mês em que já se nota que os dias estão a crescer. Sempre ouvi ao meu pai que «em janeiro, uma hora por inteiro; e quem bem contar, hora e meia vai achar». Portanto, é este um mês que me devolve os passeios de fim de tarde, com o cão, ainda com alguma luz solar, e isso merece um sonoro «Obrigada!».

Janeiro é aquele mês simples e cinzento. Sem grandes datas (a não ser o primeiro dia do ano), não contém uma festa, um dia feriado, uma data importante. É um mês sem enfeites. E é longo. E passa muito devagar, como já disse. Mas, porque optei por olhar para as coisas de um modo positivo, vou pensar que este decorrer lentamente poderá permitir-nos apreciar silêncios, ouvir mais, sermos mais serenos, vivendo sem pressas.

Janeiro existe para nos lembrar que a vida não é feita apenas de festas e momentos altos. É feita, também, de intervalos, mais ou menos longos, planos pouco preenchidos, onde nada de extraordinário acontece. E é nesses momentos que recuperamos o fôlego, momentos que permitem organizarmo-nos, por dentro e por fora, à espera dos outros dias, os festivos.

Compreendo que janeiro não seja um mês de que se goste à primeira vista. Ele não vem para encantar e não traz promessas ao longo dos seus trinta e um dias. Ele vem, na sua caminhada lenta, devolver tempo, porque alonga os dias, baixando o volume dos dias, entregando-nos um quase silêncio e alguma ordem que o mês de dezembro nos roubou. Não será um mês fácil, mas é um mês necessário.

Por isso tudo digo: Obrigada, janeiro!

About the Author: Estefânia Barroso
Estefânia Barroso
Nascida em terras francesas (Chambéry) em 1976, rumou a caminho de Portugal ainda na infância. Embora sonhasse ser veterinária, cedo percebeu que era no mundo das letras que o seu futuro se encontrava. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e iniciou a sua vida profissional como professora de Português. Mais tarde, após terminar Mestrado em Educação Especial, tornou-se professora de Educação Especial. Leitora ávida e autora dos livros “Contos com gente lá dentro” e “Contos com bichos lá dentro”, tem mantido o blogue “Steff’s World – a Soma dos Dias”, onde escreve crónicas e contos. Para além disso, escreve para jornais como o P3 do Público e alguns jornais locais.

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